Dossiê · Parcialmente explicado

Mecanismo de Anticítera: o computador de bronze que calculava o céu há 2000 anos

Naufrágio de Anticítera, Grécia · c. 150 a 100 AEC · Leitura de 7 minutos

Fragmentos de bronze esverdeado de um mecanismo antigo com engrenagens dentadas expostas, sobre pedra escura, iluminados por uma luz âmbar que revela os dentes cortados à mão

Na Páscoa de 1900, um grupo de mergulhadores gregos que caçava esponjas se abrigou de uma tempestade perto de Anticítera, uma ilha minúscula entre Creta e o Peloponeso. Quando o mar acalmou, desceram para ver o fundo. A quarenta e cinco metros de profundidade, encontraram um naufrágio romano carregado de estátuas de bronze e mármore, ânforas e moedas. Ao longo de 1900 e 1901, trouxeram dezenas de artefatos à superfície.

Entre eles, um caroço de bronze do tamanho de um livro grosso, coberto de calcário e verde de oxidação. Ninguém deu importância. Meses depois, no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, o bloco rachou ao secar. Dentro havia engrenagens.

Este artigo explica o que a ciência já decifrou do Mecanismo de Anticítera, o computador astronômico mais antigo que se conhece, e o que segue sem resposta.

O que é / quem foi

O Mecanismo de Anticítera é um computador analógico astronômico feito de bronze, montado dentro de uma caixa de madeira que cabia nas duas mãos. O que sobrou são cerca de 82 fragmentos, alguns do tamanho de uma unha, dos quais se reconstruíram ao menos 30 engrenagens. Há indícios de que o aparelho original tivesse mais de 60 rodas dentadas.

A engrenagem maior tem 223 dentes, cada um cortado à mão com tolerância inferior a um milímetro. O número não é decorativo: 223 é a quantidade de meses lunares do ciclo de Saros, o período após o qual os eclipses se repetem. Quem montou a máquina conhecia astronomia com precisão.

Girando uma manivela na lateral, o usuário avançava ou recuava no tempo. Ponteiros na frente mostravam a posição do Sol e da Lua no zodíaco e a fase lunar. Atrás, dois mostradores em espiral previam eclipses e acompanhavam o ciclo de quatro anos dos jogos pan-helênicos, incluindo as Olimpíadas.

Origem

A datação mais aceita coloca a construção do mecanismo entre 205 e 60 AEC, e a maioria dos estudos converge para algo próximo de 150 AEC. O naufrágio que o transportava afundou por volta de 60 AEC, provavelmente levando despojos da Grécia para a Itália. O aparelho está hoje no Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

A análise epigráfica das inscrições, feita por Alexander Jones, da Universidade de Nova York, aponta para um dialeto grego do Peloponeso ou possivelmente de Rodes. A hipótese predominante é que o mecanismo saiu de uma oficina ligada à tradição astronômica de Rodes, uma ilha que ficava justamente na rota marítima do navio naufragado.

Cícero, escrevendo no mesmo século, descreve aparelhos parecidos atribuídos a Arquimedes e a Posidônio de Apameia, que vivia em Rodes. Os relatos reforçam que a peça não era única. Existia uma linhagem de construtores, mesmo que o nome do autor do mecanismo permaneça desconhecido.

Linha do tempo do mecanismo

  1. c. 150 AECO mecanismo é construído, segundo a análise epigráfica das inscrições e o estilo das letras gregas. É a data mais aceita para a fabricação.
  2. c. 60 AECO navio romano que o carregava naufraga perto da ilha de Anticítera, levando estátuas e objetos de luxo para o fundo do mar Egeu.
  3. 1901Mergulhadores de esponjas concluem o resgate do naufrágio e trazem à tona o bloco de bronze que guardava as engrenagens.
  4. 1971O físico Derek de Solla Price, de Yale, usa radiografia para enxergar dentro dos fragmentos e conta os dentes das rodas pela primeira vez.
  5. 2006O Antikythera Mechanism Research Project, liderado por Mike Edmunds e Tony Freeth, aplica tomografia computadorizada de alta resolução e publica os resultados na revista Nature.
  6. 2021Tony Freeth publica na Scientific Reports uma reconstrução virtual de quase todo o mecanismo, incluindo os mostradores dos planetas.

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O detalhe técnico

Por décadas ninguém entendeu o objeto. A virada veio da tecnologia de imagem. A radiografia de Price, em 1971, revelou a contagem dos dentes. A tomografia de 2006 expôs cerca de 3400 caracteres de texto grego gravados nos fragmentos, uma espécie de manual de instruções inscrito na própria máquina.

O texto descreve o que cada mostrador exibe e como ler os ciclos. Uma seção menciona cores: uma esfera dourada para o Sol, prateada para a Lua. Outra cita os cinco planetas conhecidos na Antiguidade, o que sugere que o aparelho também modelava seus movimentos.

Em 2021, Freeth demonstrou que o mecanismo usava engrenagens epicicloidais, rodas montadas sobre rodas, para reproduzir o movimento aparente dos planetas visto da Terra, incluindo as retrogradações. O modelo matemático é compatível com a astronomia de Hiparco, que viveu entre 190 e 120 AEC.

A metalurgia foi analisada por espectrometria de raios X. O bronze é uma liga de cobre e estanho com baixo teor de chumbo, típica do período helenístico. Os dentes das engrenagens foram cortados um a um, não fundidos em molde, o que implica ferramentas de precisão e horas de trabalho manual por roda.

Legado e interpretações

O Mecanismo de Anticítera não é um enigma no sentido clássico. Sabe-se o que ele faz, como funciona e de que época é. O mistério é outro: por que não existe mais nenhum. Um aparelho com 30 ou mais engrenagens calibradas não é um primeiro rascunho, é um produto maduro de uma tradição de oficina que levou gerações para se formar.

Nenhum outro mecanismo de engrenagens dessa complexidade sobreviveu da Antiguidade clássica. Engrenagens acopladas com essa precisão só reaparecem no registro arqueológico mais de mil anos depois, nos relógios astronômicos da Europa medieval e nos astrolábios mecânicos do mundo islâmico, como os de Al-Jazari, de 1206.

A explicação mais aceita para o desaparecimento é material, não conspiratória. O bronze era valioso e voltava ao forno como moeda ou estátua. Os textos que descreviam essas máquinas foram copiados em pergaminho, que apodrece, e guardados em bibliotecas que foram saqueadas ou queimadas. O mecanismo só chegou até nós porque naufragou. O fundo do mar preservou por acidente o que os museus da Antiguidade não conseguiram guardar.

Resta a pergunta sobre tudo o que estava ao lado dele na prateleira da oficina. Quantas máquinas parecidas existiram, e quão longe a engenharia grega chegou antes de a tradição se perder, é uma resposta que provavelmente foi fundida de volta em metal.

Perguntas frequentes

Para que servia o Mecanismo de Anticítera?

Era um computador analógico astronômico. Com uma manivela, mostrava a posição do Sol, da Lua e dos cinco planetas conhecidos, previa eclipses lunares e solares e acompanhava o calendário dos jogos pan-helênicos, incluindo as Olimpíadas.

Quantos anos tem o Mecanismo de Anticítera?

A construção é datada por volta de 150 AEC, com um intervalo possível entre 205 e 60 AEC. O aparelho tem, portanto, mais de dois mil anos, e é o computador analógico mais antigo já encontrado.

Onde está o Mecanismo de Anticítera hoje?

Os fragmentos estão no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, na Grécia, onde ficam expostos junto de reconstruções que mostram como as engrenagens se encaixavam.

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