Dossiê · Parcialmente explicado
Evento de Tunguska: a explosão de 1908 que derrubou 80 milhões de árvores sem deixar cratera
Rio Tunguska, Sibéria, Rússia · 30 de junho de 1908 · Leitura de 7 minutos

Neste artigo
Na manhã de 30 de junho de 1908, por volta das 7h17 no horário local, uma explosão sacudiu a bacia do rio Podkamennaya Tunguska, na Sibéria central, a cerca de 65 quilômetros ao norte da aldeia de Vanavara. A onda de choque derrubou árvores num raio de mais de 30 quilômetros em todas as direções.
Estimativas posteriores calcularam que cerca de 80 milhões de árvores foram arrancadas pela raiz ou quebradas pela pressão do ar, sobre uma área de 2150 quilômetros quadrados. Sismógrafos na Europa e nos Estados Unidos registraram o abalo. Nas noites seguintes, o céu do Ocidente ficou tão claro que dava para ler jornal à meia-noite. Ninguém foi investigar por dezenove anos.
Este artigo explica o que a ciência estabeleceu sobre o Evento de Tunguska, a maior explosão cósmica da história registrada, e o que ainda divide os pesquisadores.
O que é / quem foi
O Evento de Tunguska foi a explosão de um corpo celeste sobre a Sibéria em 1908. A energia liberada é estimada entre 10 e 15 megatons de TNT. Para comparar, a bomba de Hiroshima liberou 15 quilotons. Tunguska foi cerca de mil vezes mais potente, e continua sendo a maior explosão cósmica documentada na história humana.
O padrão de destruição chamou atenção desde o começo. As árvores caíram apontando para fora de um epicentro, como palitos derrubados por um sopro. No centro, porém, os troncos ficaram de pé, mortos e carbonizados, mas verticais. O mesmo padrão seria documentado décadas depois em detonações nucleares atmosféricas: sob o ponto da explosão, a pressão desce na vertical e não tem força lateral para deitar os troncos.
Não há registro de mortes humanas diretas. A região era habitada por comunidades Evenki de pastores de renas, e o epicentro ficava em floresta densa. Relatos dos Evenki descrevem um clarão cegante, uma onda de calor que queimou roupas e derrubou tendas, e pessoas atiradas a dezenas de metros.
Origem
A primeira expedição científica ao local só aconteceu em 1927, liderada por Leonid Kulik, mineralogista da Academia de Ciências da União Soviética. Kulik queria encontrar fragmentos de um meteorito gigante para estudar. Encontrou algo diferente do que esperava.
Procurou a cratera de impacto e não achou nenhuma. Não havia fragmentos de ferro ou de rocha meteorítica na superfície. Kulik voltou em 1928, 1929 e 1930, drenou áreas alagadas que suspeitava serem crateras e perfurou o solo em busca de metal. Não encontrou nada. Morreu em 1942, prisioneiro de guerra, sem resolver a questão.
O isolamento extremo da região explica a demora. Em 1908, a bacia do Tunguska ficava longe de qualquer presença significativa do Estado russo. Se a explosão tivesse ocorrido cerca de quatro horas e quarenta e sete minutos mais tarde, a rotação da Terra teria colocado São Petersburgo na trajetória, e o desfecho teria sido outro.
Linha do tempo do evento
- 30 de junho de 1908A explosão ocorre sobre a bacia do rio Podkamennaya Tunguska, às 7h17 da manhã, derrubando cerca de 80 milhões de árvores.
- 1908Sismógrafos na Europa e nos Estados Unidos registram o abalo, e barógrafos detectam a onda de pressão dando mais de uma volta pela atmosfera.
- 1927Leonid Kulik chega ao epicentro na primeira expedição científica e documenta o padrão radial de árvores caídas, sem nenhuma cratera.
- 1930O astrônomo britânico Francis Whipple propõe que o objeto era um pequeno cometa, feito de gelo e poeira, que teria evaporado por completo.
- 1993Christopher Chyba e colegas publicam na Nature uma simulação que mostra um asteroide rochoso se fragmentando no ar antes de tocar o solo.
- 2017Análises de sedimentos do Lago Cheko provam que ele já existia antes de 1908, descartando a ideia de que fosse uma cratera de impacto.
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O detalhe técnico
A ausência de cratera é a evidência central. Um meteorito que atinge o solo abre uma cratera, e Tunguska não tem nenhuma. A explicação aceita pela maior parte da comunidade científica é que o objeto se desintegrou na atmosfera, numa explosão aérea a uma altitude estimada entre 5 e 10 quilômetros.
A natureza do corpo é debatida, e as duas hipóteses principais são asteroide e cometa. Em 1930, Francis Whipple defendeu um pequeno cometa de gelo e poeira, cuja desintegração completa explicaria a falta de fragmentos. A tese cometária ganhou reforço em 1983, quando Zdeněk Sekanina publicou uma análise de trajetória compatível com uma órbita de cometa.
A hipótese do asteroide foi sustentada em 1993 por Christopher Chyba, Paul Thomas e Kevin Zahnle, na Nature. A simulação numérica mostrou que um asteroide rochoso de 60 a 190 metros, entrando na atmosfera em alta velocidade, sofreria pressão aerodinâmica suficiente para se fragmentar por completo acima do solo. Os pedaços resultantes seriam microscópicos e espalhados por uma área enorme.
Amostras de solo e de resina de árvore contêm microesferas de silicato e partículas de ferro e níquel um pouco acima do normal, compatíveis com material meteórico vaporizado. A quantidade, porém, é pequena, e a análise isotópica não permitiu separar de forma conclusiva a composição de asteroide da de cometa.
Legado e interpretações
O consenso científico é que Tunguska foi a explosão aérea de um corpo celeste de 50 a 80 metros de diâmetro, provavelmente um asteroide rochoso e, com menor probabilidade, um fragmento de cometa. A energia, a altitude da detonação e o padrão de destruição batem com esse modelo. A dúvida que permanece é o tipo exato de objeto, e por que não sobrou nada tangível.
Cada hipótese resolve metade do problema. O cometa explica a ausência de fragmentos, já que o gelo evapora, mas tem dificuldade com a trajetória reconstruída e com as microesferas de silicato no solo. O asteroide explica as microesferas e a trajetória, mas precisa mostrar como um corpo rochoso de 60 metros se desfaz sem deixar um único pedaço visível.
A segunda pergunta em aberto é estatística: com que frequência eventos dessa escala acontecem. As estimativas variam de uma vez a cada 300 anos a uma vez a cada mil anos. Em 2013, um asteroide de 20 metros explodiu sobre Chelyabinsk, na Rússia, feriu 1500 pessoas e danificou 7000 edifícios, um lembrete de que a faixa de tamanho de Tunguska ainda é pouco monitorada.
A floresta se regenerou. As bétulas e os lariços novos cobriram o terreno, os troncos derrubados apodreceram e hoje quase não há marca visível na paisagem. O maior evento de impacto da história moderna não deixou cratera, não deixou fragmento e, um século depois, quase não deixou rastro.
Perguntas frequentes
O que causou a explosão de Tunguska?
A explicação aceita é a explosão aérea de um corpo celeste, provavelmente um asteroide rochoso de 50 a 80 metros, que se desintegrou na atmosfera antes de tocar o solo. A alternativa menos provável é um fragmento de cometa.
Por que Tunguska não deixou cratera nem fragmentos?
Porque o objeto explodiu no ar, a vários quilômetros de altitude, em vez de atingir o chão. A desintegração completa dispersou o material em partículas microscópicas, espalhadas por uma área grande demais para formar cratera ou deixar pedaços recuperáveis.
Um evento como Tunguska pode acontecer de novo?
Sim. Estimativas colocam a frequência entre uma vez a cada 300 anos e uma vez a cada mil anos. A explosão de Chelyabinsk, em 2013, envolveu um objeto bem menor e ainda feriu 1500 pessoas, o que mantém o tema na agenda da defesa planetária.
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