Dossiê · Mistério em aberto

Manuscrito Voynich: o livro de 600 anos que ninguém conseguiu ler

Beinecke Library, Yale · Pergaminho datado entre 1404 e 1438 · Leitura de 7 minutos

Códice medieval aberto sobre pedra escura, com texto num alfabeto desconhecido à esquerda e plantas não identificadas desenhadas à direita, iluminado por luz quente

Em 1912, o antiquário Wilfrid Voynich comprou de um antigo colégio jesuíta perto de Roma uma caixa de livros raros. Dentro dela havia um códice de 240 páginas escrito por uma mão anônima, num alfabeto que ninguém reconheceu. O livro já tinha passado por imperadores, criptógrafos do Vaticano e matemáticos da NSA.

Nenhuma palavra dele foi definitivamente decifrada em 600 anos.

Este artigo explica o que se sabe com segurança sobre o Manuscrito Voynich, o que continua sem resposta e por que ele resiste a toda tentativa de tradução.

O que é o Manuscrito Voynich

O códice é pequeno, mede 23,5 por 16,2 centímetros. Restam 240 fólios, embora a paginação original indique que havia pelo menos 270. Trinta páginas, no mínimo, desapareceram antes de o livro chegar às mãos de Voynich. Ele está catalogado como MS 408 na Beinecke Rare Book and Manuscript Library, na Universidade de Yale.

O conteúdo se organiza em cinco seções visuais. A botânica traz mais de 113 plantas desenhadas, nenhuma correspondendo a espécies conhecidas da flora medieval. A astronômica mostra diagramas circulares com signos do zodíaco. A biológica representa figuras femininas banhando-se em estruturas que parecem tubos interconectados. Há ainda uma seção cosmológica, com mandalas celestes, e uma farmacológica, com frascos rotulados.

O texto está escrito num alfabeto próprio, batizado de "voynichese". Tem entre vinte e trinta símbolos distintos, a depender de como se contam as variantes. As palavras são separadas por espaços, e o livro parece ter sido escrito por uma única mão. Não há rasuras significativas, o que já é estranho: quem escreve sem errar costuma estar copiando algo pronto, não compondo na hora.

Origem: de Praga a Yale

A datação por carbono, feita em 2011 na Universidade do Arizona, situou o pergaminho entre 1404 e 1438, com 95% de confiança. A tinta é homogênea e compatível com o período. O material, portanto, é autêntico do século XV, seja qual for o conteúdo.

A primeira trilha documental começa em Praga, na corte de Rodolfo II, colecionador obsessivo de alquimistas e astrólogos. O alquimista Georg Baresch escreveu ao jesuíta Athanasius Kircher por volta de 1639 pedindo ajuda para decifrar o livro. A afirmação de que Rodolfo II teria pago seiscentos ducados de ouro pelo códice vem de outra carta, escrita em 1665 por Johannes Marcus Marci a Kircher, e não de um registro de compra.

Do século XVII em diante, o livro entra e sai dos arquivos jesuítas. Hiberna por mais de duzentos anos numa biblioteca perto de Roma, até ser vendido a Voynich em 1912. Depois da morte do antiquário, passa por sua esposa, pela última proprietária e chega a Yale, onde está hoje.

Linha do tempo do manuscrito

  1. 1404 a 1438O pergaminho é produzido, segundo a datação por carbono de 2011. É a única data cravada com segurança sobre o objeto.
  2. c. 1639O alquimista Georg Baresch, em Praga, escreve ao jesuíta Athanasius Kircher pedindo ajuda para ler o livro. É o registro documental mais antigo que se conhece.
  3. 1665A carta de Johannes Marcus Marci a Kircher menciona os seiscentos ducados supostamente pagos por Rodolfo II.
  4. 1912Wilfrid Voynich compra o códice de um colégio jesuíta perto de Roma e leva o livro para o mundo dos estudos.
  5. 1969William Friedman, o maior criptoanalista americano, morre depois de mais de trinta anos de tentativas sem decifrar uma frase.
  6. 2011A Universidade do Arizona data o pergaminho por carbono e encerra a hipótese de falsificação moderna.

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O detalhe técnico: por que ninguém decifra

As investigações sérias começaram no século XX. William Friedman, o homem que quebrou o código diplomático japonês Purple antes de Pearl Harbor, dedicou décadas ao Voynich. Morreu sem avançar. Antes disso, afirmou apenas que o livro seria "uma tentativa inicial de construir uma linguagem artificial, do tipo filosófico". Era uma hipótese, não uma decifração.

Nos anos 1970, o criptoanalista Prescott Currier mostrou que o texto obedece à lei de Zipf, uma regularidade observada em todas as línguas naturais: a frequência de uma palavra é inversamente proporcional à sua posição no ranking. Estatisticamente, o voynichese se comporta como língua real, não como sequência aleatória.

Ao mesmo tempo, ele tem propriedades que não batem com idioma conhecido. A distribuição de letras dentro das palavras é rígida demais: certos símbolos só aparecem no início, outros apenas no fim. A entropia, que mede a imprevisibilidade, é mais baixa que a do latim, do árabe ou do chinês medieval. E as palavras se repetem em blocos próximos com frequência anormal, às vezes duas ou três vezes seguidas. Nenhuma língua natural conhecida reúne todas essas anomalias ao mesmo tempo.

Legado: as quatro hipóteses ainda abertas

A pesquisa séria mantém quatro caminhos, e nenhum foi confirmado ou descartado. O primeiro é uma linguagem construída, um projeto de idioma universal séculos antes do esperanto. O segundo é um código cifrado sobre uma língua natural, provavelmente o latim ou um dialeto europeu do século XV. O terceiro é uma fraude renascentista feita para enganar colecionadores ricos como Rodolfo II. O quarto, o mais vertiginoso, é uma língua natural extinta cujo único registro escrito é esse livro.

Parte do problema é estrutural. Um código medieval é quebrável quando se conhece o idioma de base. Uma língua extinta é decifrável quando existe um texto bilíngue, como a Pedra de Roseta foi para o egípcio. O Voynich não oferece nenhum dos dois. É um objeto solitário, sem parente conhecido e sem tradução auxiliar. Em 2019, o pesquisador Gerard Cheshire anunciou tê-lo decifrado como proto-romance, e a comunidade acadêmica rejeitou a tese em poucas semanas por falhas de método.

Talvez algum algoritmo futuro consiga. Talvez um achado num mosteiro esquecido abra uma porta. Por enquanto, o MS 408 continua na estante de Yale, esperando um leitor que ainda não chegou.

Perguntas frequentes

O manuscrito Voynich já foi decifrado?

Não. Apesar de anúncios periódicos na imprensa, nenhuma proposta de tradução resistiu à revisão acadêmica. Nem criptógrafos profissionais nem algoritmos de machine learning produziram uma frase coerente e verificável até hoje.

O que está escrito no manuscrito Voynich?

Ninguém sabe. O livro tem cinco seções ilustradas, sobre plantas, astros, figuras humanas em banhos, mandalas celestes e frascos, mas o texto que acompanha esses desenhos está num alfabeto próprio, o voynichese, que segue sem tradução.

Onde está o manuscrito Voynich hoje?

Ele fica na Beinecke Rare Book and Manuscript Library, na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, catalogado como MS 408. As páginas digitalizadas estão disponíveis para consulta pública no acervo online da biblioteca.

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