Dossiê · Mistério em aberto

Sinal Wow!: os 72 segundos de rádio que a ciência não explica desde 1977

Radiotelescópio Big Ear, Ohio · 15 de agosto de 1977 · Leitura de 7 minutos

Impressão de dados de radiotelescópio em papel contínuo sobre uma mesa escura, com uma sequência de números destacada em vermelho sob luz âmbar rasante

Em 15 de agosto de 1977, um radiotelescópio instalado num campo agrícola de Ohio captou um sinal de rádio que não deveria existir. A antena operava sozinha, varrendo o céu enquanto a rotação da Terra movia lentamente o campo de visão, e imprimia os dados em papel contínuo para revisão posterior.

Três dias depois, um astrônomo voluntário circundou uma sequência na impressão e escreveu ao lado uma única palavra: "Wow!".

Este artigo explica o que foi o sinal Wow!, o que a ciência já descartou e por que ele continua sem explicação quase cinquenta anos depois.

O que foi o sinal Wow!

O sinal foi registrado pelo Big Ear, radiotelescópio da Universidade Estadual de Ohio, perto da cidade de Delaware. Ao revisar a impressão, o astrônomo Jerry Ehman viu um pico de intensidade brutal representado pela sequência 6EQUJ5. A curva subiu de forma abrupta, atingiu um valor trinta vezes superior ao fundo cósmico de rádio e desceu com a mesma suavidade. Ehman marcou tudo com caneta vermelha e anotou "Wow!" na margem.

O sinal durou exatamente 72 segundos. Essa duração não foi acidental: era o tempo máximo que uma fonte celeste pontual permaneceria no campo de visão do Big Ear enquanto a Terra girava. A curva de intensidade corresponde ao padrão da antena para um ponto fixo no firmamento, e nenhuma fonte terrestre conhecida reproduz esse comportamento.

A frequência reforçou o enigma. O sinal chegou em 1420,4556 MHz, quase idêntico à linha de emissão do hidrogênio neutro. Em 1959, os físicos Giuseppe Cocconi e Philip Morrison já haviam argumentado na Nature que, se uma civilização quisesse se comunicar por rádio, essa frequência seria a escolha lógica, por ser universal e protegida de interferência.

Origem: o telescópio e a busca por sinais

O Big Ear foi construído em 1963 por John Kraus, engenheiro elétrico da Universidade Estadual de Ohio, como parte do maior levantamento de fontes de rádio do hemisfério norte. Era uma superfície refletora fixa de 103 metros de largura, que usava a própria rotação da Terra como mecanismo de varredura.

Em 1973, quando o financiamento secou, Bob Dixon assumiu a coordenação e redirecionou o telescópio para a busca SETI, o primeiro programa acadêmico de escuta contínua por sinais de inteligência extraterrestre nos Estados Unidos. O projeto funcionava com orçamento quase zero, e voluntários como Ehman, professor de engenharia sem remuneração pelo trabalho, revisavam as impressões à mão.

O detalhe que segue sem resposta está na antena. O Big Ear tinha duas cornetas de alimentação, e uma fonte celeste real deveria passar primeiro por uma e depois pela outra, com cerca de três minutos de intervalo. O sinal Wow! apareceu em apenas uma das duas.

Linha do tempo do sinal Wow!

  1. 1959Cocconi e Morrison propõem, na Nature, que a frequência do hidrogênio seria a escolha lógica para uma comunicação interestelar por rádio.
  2. 1963John Kraus constrói o radiotelescópio Big Ear na Universidade Estadual de Ohio.
  3. 1973Bob Dixon redireciona o Big Ear para a busca SETI, a primeira escuta acadêmica contínua dos Estados Unidos.
  4. 15 de agosto de 1977O telescópio registra o sinal, e três dias depois Jerry Ehman escreve "Wow!" na margem da impressão.
  5. 1997O Big Ear é demolido para dar lugar a um campo de golfe, sem nunca ter recaptado o sinal.
  6. 2016O astrônomo Antonio Paris propõe a hipótese dos cometas, rejeitada pela comunidade SETI logo depois.

Um mistério investigado como este, toda noite às 20:20

Mistérios Milenares investiga um enigma histórico por edição, separando o fato documentado da hipótese. Gratuito, por email.

+663 leitores já recebem

1 email/dia · 7 min · Cancele quando quiser

O detalhe técnico: por que ninguém explica

As hipóteses terrestres foram investigadas uma a uma. Satélites eram improváveis, porque em 1977 nenhum operava na faixa de 1420 MHz, protegida por acordo internacional. A reflexão em detritos espaciais não reproduz o perfil de intensidade observado. E o instrumento foi calibrado antes e depois do evento, sem qualquer anomalia registrada.

A explicação natural mais comentada veio em 2016. O astrônomo Antonio Paris sugeriu que dois cometas que cruzaram a região do céu em 1977 poderiam ter emitido na frequência do hidrogênio a partir de sua nuvem de gás. A comunidade SETI rejeitou a proposta de forma quase unânime, por três motivos diretos.

Primeiro, a intensidade: a emissão de hidrogênio de um cometa é fraca, ordens de magnitude abaixo do pico registrado. Segundo, a duração: cometas se movem no céu, mas a fonte do Wow! ficou parada em relação às estrelas distantes durante os 72 segundos. Terceiro, a forma da curva, típica de um ponto fixo, que uma nuvem difusa e móvel não produziria.

Legado e interpretações

O problema do sinal Wow! é epistemológico. Para ser aceito como evidência científica, um evento precisa ser replicável ou observável em mais de um instrumento, e o Wow! falha nos dois critérios. Foi captado por um único telescópio, numa única corneta, numa única noite, e nunca mais apareceu, apesar de centenas de novas varreduras da mesma coordenada.

Restam quatro cenários, todos em aberto. Uma fonte natural transitória e rara, que emitiu na frequência do hidrogênio e cessou, embora nenhum fenômeno conhecido se encaixe no perfil. Uma interferência terrestre nunca identificada. Um sinal artificial de origem extraterrestre transmitido uma única vez naquela direção. Ou um artefato instrumental que a tecnologia de 1977 não tinha resolução para flagrar.

A direção é conhecida: o sinal veio da constelação de Sagitário, perto do grupo estelar Chi Sagittarii, e não corresponde a nenhuma fonte de rádio catalogada. Jerry Ehman, que revisitou o caso até morrer em 2022, resumiu a prudência numa frase: o sinal deveria ter sido chamado de "Hm?" em vez de "Wow!", porque ninguém sabe o que era. O pesquisador Robert Gray, autor de duas décadas de buscas de acompanhamento, chegou à mesma conclusão: o sinal é genuíno e não instrumental, mas sua natureza permanece indeterminada.

Perguntas frequentes

O que foi o sinal Wow!?

Um sinal de rádio de 72 segundos captado em 15 de agosto de 1977 pelo radiotelescópio Big Ear, em Ohio. Chegou na frequência do hidrogênio neutro, com intensidade trinta vezes acima do fundo cósmico, e recebeu o nome da palavra que o astrônomo Jerry Ehman escreveu ao vê-lo na impressão.

O sinal Wow! era de alienígenas?

Ninguém sabe. O sinal tem todas as características que uma transmissão artificial interestelar teria, segundo os critérios do SETI, mas nunca se repetiu e foi captado por um só instrumento. Sem replicação, a ciência não pode confirmar origem extraterrestre nem descartá-la.

O sinal Wow! já foi explicado?

Não de forma conclusiva. A hipótese natural mais recente, de que teria vindo de cometas, foi rejeitada pela maioria dos especialistas por não bater com a intensidade, a duração e a forma do sinal. As explicações terrestres e instrumentais também foram investigadas e descartadas.

Toda noite, um enigma que a história não fechou

Receba o próximo dossiê no seu email. Toda noite, às 20:20. Gratuito.

+663 leitores já recebem

1 email/dia · 7 min · Cancele quando quiser