Dossiê · Parcialmente explicado

Linhas de Nazca: os desenhos gigantes que só se veem do céu e o que a ciência já explicou

Deserto de Nazca e Palpa, Peru · Cultura Nazca, 200 AEC a 600 EC · Leitura de 7 minutos

Vista aérea do deserto de Nazca ao entardecer, com uma figura gigante traçada em linhas claras sobre o solo avermelhado e sombras longas projetadas pela luz rasante

Em 1939, o historiador americano Paul Kosok sobrevoava o deserto costeiro do sul do Peru quando olhou pela janela do avião e viu algo sem sentido. No chão avermelhado, linhas retas se estendiam por quilômetros e convergiam em figuras geométricas enormes, visíveis apenas do alto.

Quem as traçou viveu e morreu séculos antes de qualquer ser humano poder olhar a pampa de cima.

Este artigo explica o que se sabe com segurança sobre as linhas de Nazca, o que a ciência já demonstrou e por que o motivo delas continua em disputa.

O que são as linhas de Nazca

As figuras estão na Pampa de Nazca e de Palpa, na costa sul do Peru, cerca de 450 quilômetros ao sul de Lima. O catálogo atual ultrapassa 1500 geoglifos distribuídos por uma faixa de deserto de aproximadamente 500 quilômetros quadrados.

Há três categorias. As linhas retas, que podem cruzar a planície por até dez quilômetros sem desvio mensurável. As figuras geométricas, como trapézios que chegam a 700 metros. E os biomorfos, as figuras de animais e plantas que viraram ícones da região: o colibri de 93 metros, a aranha de 46, o condor de 134, o macaco com a cauda em espiral e o pelicano de quase 300 metros. O maior geoglifo alcança 370 metros.

A técnica é conhecida e simples. A superfície do deserto é coberta por uma camada de pedras escuras, oxidadas pelo ferro. Ao remover essas pedras e empilhá-las nas bordas, expõe-se o subsolo claro por baixo, e o contraste entre o exposto e o escuro ao redor forma o desenho.

Origem: a cultura Nazca

Os geoglifos foram produzidos pela cultura Nazca, uma civilização pré-incaica que floresceu na costa sul do Peru entre cerca de 200 AEC e 600 EC. Os Nazca não tinham escrita, não conheciam a roda e não domesticaram animais de carga. Viviam em pequenos centros ao longo de vales irrigados, sendo Cahuachi, um complexo cerimonial de adobe de 150 hectares, o maior deles.

A datação não é exata. A maioria dos pesquisadores situa a produção principal entre 500 AEC e 500 EC, com base em cerâmica encontrada perto das linhas e em análises de termoluminescência. Os biomorfos parecem mais antigos, herdados da cultura Paracas, enquanto as linhas retas e as figuras geométricas pertencem ao período Nazca clássico.

A conservação por dois mil anos se explica pelo clima. A região recebe menos de 25 milímetros de chuva por ano, quase não tem vento de superfície e o solo mal se mexe. O deserto funciona, na prática, como um arquivo.

Linha do tempo das linhas de Nazca

  1. 500 AEC a 500 ECPeríodo da produção principal dos geoglifos, datado por cerâmica e termoluminescência. Os biomorfos mais antigos remontam à cultura Paracas.
  2. 1939Paul Kosok sobrevoa o deserto, vê as figuras do alto e batiza a pampa de "o maior livro de astronomia do mundo".
  3. A partir de 1940A matemática alemã Maria Reiche começa cinco décadas medindo, mapeando e protegendo as linhas, defendendo a tese do calendário astronômico.
  4. 1968O astrônomo Gerald Hawkins testa os alinhamentos por computador e conclui que não superam o acaso, o que derruba a hipótese astronômica.
  5. 1994As linhas de Nazca entram na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO.
  6. 2019 a 2022A equipe de Masato Sakai identifica mais de 300 novos geoglifos por satélite e inteligência artificial.

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O detalhe técnico: como foram feitas

Por décadas, a ideia dominante foi a de Kosok e Reiche: a pampa seria um imenso calendário astronômico, com linhas apontando para solstícios, equinócios e estrelas específicas. A tese caiu no teste estatístico. Em 1968, Gerald Hawkins, da Universidade de Boston, programou um computador para verificar se as linhas apontavam para corpos celestes com frequência acima do acaso. O número de alinhamentos reais era indistinguível do que se obteria traçando retas ao acaso no deserto.

A pergunta de "como" também deixou de ser um enigma. Experimentos de Joe Nickell, em 1982, e depois de equipes da Universidade de Yamagata mostraram que é possível produzir os geoglifos apenas com estacas, cordas e planejamento prévio. Bastava desenhar um modelo pequeno e ampliá-lo no terreno por um sistema de grade. Nenhuma tecnologia impossível é necessária, só trabalho coletivo organizado e tempo.

A análise de imagens por inteligência artificial da equipe de Sakai trouxe um dado novo. Os geoglifos menores, de 5 a 20 metros, se concentram ao longo de caminhos pedestres entre centros habitados. Não foram feitos para serem vistos do alto, e sim para serem percorridos a pé, o que sugere que a função variava com o tamanho.

Legado e interpretações

A técnica está demonstrada, então a pergunta que divide os pesquisadores não é "como", e sim "para quem". Os geoglifos grandes, com mais de cem metros, são irreconhecíveis ao nível do solo. Quem caminha sobre o colibri não sabe que pisa num colibri, porque a forma só se revela de cima, e os Nazca não tinham aeronaves.

Três leituras seguem abertas. A primeira, ligada ao antropólogo Johan Reinhard e à escola etnográfica andina, sustenta que os geoglifos eram oferendas às divindades da montanha e da água, dirigidas a entidades que habitavam o alto e não a olhos humanos. Muitas linhas retas convergem para pontos onde a água subterrânea se aproxima da superfície, e escavações acharam cerâmica quebrada de propósito junto às figuras, compatível com oferendas.

A segunda, defendida por Anthony Aveni, da Colgate University, propõe que o ato de construir era o próprio ritual: centenas de pessoas percorrendo, limpando e traçando, num processo comunitário mais importante que a figura final. A terceira, apoiada nos achados da equipe japonesa, argumenta que tipos diferentes de geoglifos tinham funções diferentes, e que tratá-los como um fenômeno único é o erro que impede um consenso.

Nenhuma das três exclui as outras, e nenhuma foi confirmada como explicação suficiente. A cada temporada de varredura por satélite surgem figuras novas, e o catálogo segue incompleto. A pampa guardou o desenho com perfeição e perdeu a intenção.

Perguntas frequentes

Quem fez as linhas de Nazca?

A cultura Nazca, uma civilização pré-incaica da costa sul do Peru, produziu a maior parte dos geoglifos entre cerca de 500 AEC e 500 EC. Os biomorfos mais antigos são atribuídos à cultura Paracas, anterior. Nenhuma teoria séria envolve intervenção externa, já que a técnica com estacas e cordas foi reproduzida em experimentos.

Como as linhas de Nazca foram feitas se só se veem do céu?

Removendo a camada de pedras escuras da superfície e expondo o solo claro por baixo. Experimentos mostraram que dava para ampliar um desenho pequeno no terreno usando estacas, cordas e uma grade de coordenadas, sem precisar ver o resultado do alto durante a execução.

Para que serviam as linhas de Nazca?

Não há consenso. As três hipóteses vivas apontam para oferendas religiosas ligadas à água e às montanhas, para o valor ritual do próprio ato de construir, e para funções distintas conforme o tamanho de cada geoglifo. A tese antiga do calendário astronômico foi descartada em 1968 por falta de suporte estatístico.

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